terça-feira, 7 de março de 2017

O fim da linha.

Quantas vezes me vi no banheiro da casa dele, toda encolhida, sentindo a saliva quente dele no meu corpo enquanto ele gritava? Pare de chorar como um neném. Você é louca. Ninguém mais te aguentaria. Quantas vezes fiquei tremendo ali no chão, contando as respirações, quase sufocando num ataque de pânico causado por um desses acessos de loucura? Mas ele nunca me bateu. Quantas horas fiquei ali no chão daquele banheiro depois de ele ter voltado para a cama, meus olhos vermelhos dos vasos estourados?Quantas vezes ouvi o ronco e percebi que ele tinha pegado no sono, a não mais de um metro de distância, enquanto eu hiperventilava, ainda à mercê do ataque de pânico? Quantas vezes sussurrei “Como vim parar aqui? Como virei essa mulher?” Quantas vezes disse para mim mesma: “Levante, chame um táxi e vá embora”? Quantas vezes me levantei e não me reconheci no espelho? Quanto ódio eu senti pela mulher que me olhava de volta? Mas ele nunca me bateu. Quantas vezes voltei para aquela cama, em vez de entrar num táxi, e acordei com os braços dele em volta de mim, dizendo que a culpa tinha sido minha? Ele não era assim. Eu é que trazia à tona esse lado dele. Eu tinha de mudar. Parar de acusá-lo. Se eu fosse mais gentil, ele reagiria de outro jeito. Quantas vezes mudei minha abordagem antes de perceber que a única maneira de evitar o abuso era não tocar no assunto? Mas ele nunca me bateu. Quantas vezes voltei para ele antes que essas amigas ficassem fartas de me ajudar? Quantas vezes o defendi e justifiquei seu comportamento quando contei para uma amiga o que ele tinha feito? Quando foi que simplesmente parei de contar para as pessoas para evitar a vergonha da loucura que eu estava vivendo – a vergonha de ser uma mulher independente e forte que não conseguia se livrar de uma situação tóxica. Quando foi que parei de ter expectativas? Mas ele nunca me bateu. Como eu poderia explicar que achava que a culpa era em parte minha, apesar de sentir vergonha de ouvir aqueles chavões saindo da minha boca. Ninguém realmente entendia. Ninguém o conhecia como eu. Minha função era protegê-lo da verdade do que ele fazia comigo. Não poderia deixar que achassem que ele era um monstro. Não contaria para ninguém. Estava totalmente sozinha. Mas ele nunca me bateu. Na minha solidão, não enxergava mais nos olhos dos outros o reflexo que indicava o que era normal. Só enxergava o reflexo nos olhos dele e comecei a acreditar no que ele me dizia sobre mim. Comecei a acreditar nas explicações irracionais dele, apesar do meu coração e dos meus olhos. Deixei que ele definisse a realidade. Me isolei. Era mais fácil cortar minha rede de apoio que ter de mentir. Do que ter de encarar a humilhação da minha realidade. Parte de mim sabia que, quando soubessem tudo o que estava acontecendo, as pessoas me forçariam a sair dali para sempre. Não poderia voltar. E eu sabia que precisaria voltar. Mas ele nunca me bateu. Estabeleci um limite. Uma fronteira que não atravessaria. No minuto que ele me batesse, eu iria embora. Mas na verdade eu sabia que nem assim iria embora. Teria racionalizado: ao me bater, ele perceberia como as coisas estavam fora do controle. Tudo mudaria. Não teria de ir embora. Se ele me machucasse, estaria me mostrando que me amava. Ele se importava tanto comigo que era capaz dessa loucura. Ele gostava tanto de mim que era dominado pela raiva ou pelo ciúme ou pela tristeza e simplesmente não conseguia se controlar. [...] _ http://www.pragmatismopolitico.com.br/2016/03/eu-costumava-achar-que-era-louca-um-relato-de-um-relacionamento-abusivo.html

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

01:03

​ Sua visão fica embaçada, seu coração parece saltar do peito, a respiração falha, ela perde o ar. Ela não consegue dormir, mas também não pode continuar... As coisas deveriam ser assim? Ela tenta ajudar todo mundo, por que a cabeça dela é essa bagunça? Ela se pergunta todos os dias se uma bala na cabeça calaria todas as vozes. Ela está tentando controlar tudo, mas ela não parece ser capaz..."

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

22/01/2017

​Eu escolhi esse como meu último dia. As vozes na minha cabeça tem me deixado louca. Nos não sabemos por onde começar. Eles nos machucaram de tantos jeitos. Eles nos silenciaram. Eles nos fizeram mentir. Eles nos fizeram perder nossa vontade de continuar. Eles não deixaram nos confiarmos em ninguém. Eu estou indo. Eles levaram tudo que nós tínhamos. Eu não consigo. Eu não consigo continuar. Você diz pra nós seguirmos em frente. Você diz para continuarmos. Você não quer ajudar. Você tira sarro da nossa doença. Você não quer ser cúmplice desse final. Você não quer ser culpado. Corra, fuja. Eu escolhi aceitar. Eu escolhi por um fim. Eu consigo ver a luz no fim do túnel. É essa a nossa saída? Deixando acontecer. Ela é agora mais uma estrela no céu.